28.7.11

Ela vai casar

Sempre que passava a mão nas flores do jardim se sentia assim, como elas. Seu vestido florido ajudava, cabelos morenos balançando. Uma mecha escorria retorcida pelos olhos, apontando ao nariz gracioso. Quando a porta abriu, abriu também um sorriso. Tanta história passava por aquele dia, os sentidos se misturavam todos de tão intensos e densos. Aquele homem que abria caminho pelo passeio a mudara desde o primeiro encontro.
Num começo com muitos doces e poucos amargos, trocavam palavras de afeição, como amantes mesmo fariam. Tempo juntos era sempre lucro e os dois se deliciavam com os minutos. Se o céu estava limpo, era uma grande oportunidade de saírem ao mundo, com olhos curiosos e sedentos. Os momentos acompanhados marcavam a história de cada. Provavelmente veriam os parques, as árvores e os pássaros alguma vez na vida, contudo o coração torna as coisas tão mais relevantes quando as vemos ao lado de quem se ama. Se o céu escurecia, era a oportunidade perfeita de cerrarem a porta de casa, procurando jogos e brincadeiras infantis. Agradeciam a chuva. Nem sequer o tempo que passavam separados era desperdiçado. Seus afazeres todos ganhavam especial tempero pela sensação extasiante de um sei-lá-o-quê incontido que banhava seus dias, seus sorrisos e choros.
Sim, houve muitos choros. Até certo ponto, era coisa natural, porém foi piorando e as cosias acinzentaram de vez na primeira crise. Era doença. Tinha também imaturidade. O que lhe ardia era como a imensa maioria das vezes, ele estava certo de fato, e ainda mais, quando estava errado, ela tinha de se comportar como se fosse o contrário. Não suportava! Era como trezentas mil calúnias à sua existência, um presente atestado de invalidez moral. Quando as doenças, passaram, a imaturidade continuou. As brigas eram tão constantes quanto os abraços. Os dois cresceram, os dramas também. Fizeram tantas viagens, para dentro ou para fora que ao que tudo indica não conseguiriam lembrar de todas. Mas, não importa o estado em que iam, continuavam selando seus calendários com seus bons momentos.
Descobriram que era mais ou menos assim. Enquanto os poetas e escritores displicentes escreviam sobre o amor, eles o vivam - todos os seus lados. Havia dias - e como havia - que não se olhavam. A raiva cerceava os quartos, num pulsante alerta a todos que andavam pela casa. Ele, sempre mais maduro, era responsável pela maioria das iniciativas. E ela sofria com isso. Tentava sempre estar mais preparada, melhor para ele, mas aos seus olhos falhava incessantemente. Assim, frustava-se e recolhia-se como animal ameaçado, sentidos atentos à qualquer demonstração que possa ser interpretada como agressiva. Odiavam seus erros e viam-nos projetados no outro. No entanto, com esperança persistente, reconciliavam-se. Buscavam amar - e suportar os defeitos.
Tudo chegou a este momento. Os cabelos esbranquiçados dele estavam cada vez mais ralos. E em questão de dias, entregaria ela aos cuidados de outro homem. Ela foi ao seu encontro, pronta para sua última caminhada com ele... como solteira:
- Bom dia, pai. Vamos?